A estrada que dá acesso a São Luis, a BR-135, de há muito carece de alargamento e
da pavimentação devida. O projeto de implantação da Refinaria da Petrobras reacendeu
as velhas esperanças de que o trecho entre a capital e Bacabeira finalmente
sairia em face dos interesses econômicos e dos vultosos investimentos em jogo. Nem
assim as obras começaram, e o acesso à ilha transformou-se na rodovia da morte,
por conta dos sucessivos acidentes quase diariamente repetidos. As causas são conhecidas:
o enorme volume de tráfego, a má sinalização, quadro inaceitável, em se
tratando da única via de acesso para a quase quatrocentona capital do Maranhão.
Os
mais velhos lembram-se da longa novela para a construção da ponte de São
Francisco, entre os anos cinquenta e sessenta, quando por omissão de alguns
dirigentes e da improbidade de outros, o obra era alvo do gracejo popular.
Dizia-se, as verbas eram enviadas, inclusive para a pintura, mas perdiam-se nos
descaminhos da corrupção. O poeta José Chagas, depois eleito vereador à Câmara
Municipal de São Luis, produziu extenso poema sob o título “Discurso da Ponte”,
versejando sobre as agruras da cidade que completara 350 anos, mas se
encontrava à mercê de políticos inescrupulosos, preocupados unicamente em
satisfazer-se em detrimento dos interesses de sua sofrida população.
Decorridos
50 anos, a outrora “ilha rebelde” ganhou novas alcunhas não menos significativas.
Chamam-na de “ilha do amor”, de “Jamaica brasileira”, crescida ou inchada,
sobretudo em população. Há cinco décadas constituia-se em modesto burgo de
duzentos mil habitantes, hoje está ultrapassando mais de um milhão de almas.
Crescimento pobre e desordenado, intensificado com a migração rural, a
instalação de megaprojetos como os da Alcoa, da Vale do Rio do Doce, com muitas
promessas e poucos resultados para os naturais da terra, cognominada de
gonçalvina em justa homenagem tributada ao seu maior bardo, Antônio Gonçalves
Dias. Daí adveio-lhe outro título de “terra onde o poeta nasceu”. Lugar onde se
melhor fala a língua portuguesa, fama conquistada a partir de meados do século
19 pela aparição da plêiade de intelectuais formados na tradição coimbresca que
brilharam nas letras nacionais.
Quando
da instalação dos megaprojetos, entre os anos 70 e 80, construiu-se discurso
que o Estado do Maranhão deixaria de ser pobre para transformar-se em primo
rico da Federação. A retórica partia de dirigentes públicos e de empresários,
desavisados ou de má fé, desconsiderando que projetos gigantescos para a
exploração “in natura” de recursos minerais exportáveis, além de não deixarem
nenhum benefício para os habitantes do lugar, estabelecem enclaves de pobreza,
agudizando os problemas de carência de moradia, esgoto, água, abastecimento,
serviços de saúde, de educação e de segurança pública.
O
mesmo discurso retorna agora baseado no agronegócio, na exploração do gás e
refino do petróleo. Para tanto estão previstos grandes investimentos na
ampliação da capacidade energética, na construção de usinas hidrelétricas, na
ampliação do Porto do Itaqui, ao lado de outros da região amazônica, os de
Santarém e Belém no Pará, além da ampliação da malha ferroviária, da construção
de rodovias, hidrovias, de linhas de transmissão, com vistas aos corredores de
exportação.
Parte
do Maranhão situa-se na “Amazônia Legal”, onde estão prevê-se a aplicação de
recursos astronômicos. Fala-se a linguagem dos bilhões. Exemplificativamente,
preconiza-se a aplicação de 83 bilhões para a construção de hidrelétricas; 6,9
para rodovias; 2 para hidrovias; 12,3 para linhas de transmissão; 53,7 para a
mineração; 49 para petróleo e gás; 0,4 para portos, totalizando, dentre outros
itens, 212 bilhões de reais em investimentos, capazes de até o ano 2020
transformar a “Amazônia Legal” em protagonista do desenvolvimento nacional.
Quem
pode ser contra programa semelhante? Seria o mesmo que se opor ao progresso, ao
desenvolvimento. Cumpre, no entanto refletir sobre os mitos do discurso, para
não incidir nos equívocos anteriores.
Os
projetos empresariais visam lucros, resultados. Por mais que se fale em
responsabilidade social do empresário e na necessária parceria público-privada,
cabe aos dirigentes do Estado, da sociedade, a reflexão e as exigências do desenvolvimento social, este na maioria das
vezes não é contemplado pelo econômico.
Impõem-se debates públicos sobre os impactos
ambientais e sociais decorrentes desses projetos, examinando-se os aspectos
positivos e negativos que sofrerão as populações locais onde se instalarão.
Como
se justifica que os maranhenses morram diariamente na BR- 135, uma estrada que
depois renderá milhões de petrodólares. A vida humana não tem preço. Faz-me lembrar
da canção vitoriosa no V Festival Internacional, intitulada BR-3. Em certo
trecho dizia na interpretação de Tony Tornado: “Há um crime no longo asfalto
dessa estrada”.
É
hora de governo, oposição e sociedade falarem a mesma linguagem.
COMPARTILHE